Serra da Estrela

Desde pequenos que o sabemos: o ponto mais alto de Portugal continental fica na Serra da Estrela. Dois mil metros de altitude. Na verdade, não são bem 2000 metros, mas fica lá bem perto. E, para quem sobe de bicicleta, não são uns metros a menos que vão fazer a diferença na sensação de termos conseguido fazer algo que nem todos fazem, nem que se se faz todos os dias.

Quando recentemente fui convidado a ir à cabana/retiro do Artur da Lisbon Cycling, algures pela Serra mais alta de Portugal, não pude deixar de dizer que não. Afinal de contas, não é todos os dias que subimos de bicicleta até à Torre. Sim, iria custar, mas o que é o cansaço quando se ganha paisagens e vistas fabulosas?

 

 

 

Começámos a nossa subida na aldeia de Unhais da Serra, uma localidade do lado da Covilhã. Sempre me disseram que começar em Manteigas era mais fácil, razão pela qual não comecei lá.
Já sabíamos mais ou menos o caminho, mas claro que não custa confirmar no GPS local: o grupo de homens sentados à beira da igreja local. Asseguraram-nos que a subida era fácil e que eram só 15 kms. Já sabendo o que a casa gasta, saímos preparados. Para aqueles que me estão sempre a perguntar o que levo dentro do saco, levo comida a sério (nada de barras energéticas) e roupa.

 

O nosso trajecto iria incluir uma secção de estrada em terra batida. Excelente! Vamos começar.

Uma coisa se entende rapidamente: o caminho é sempre,sempre a subir. Pela estrada que serpenteia montanha acima, rapidamente ganhamos altitude. Subindo a Nave de Santo António, reparamos que as casas tornam-se mais pequenas e as montanhas, que ao fundo pareciam pequenas, são agora enormes blocos maciços de granito e xisto. Uma coisa que nunca deixa de espantar é a dimensão titânica destes maciços de pedra, que irrompem, direcção ao céu.

 


À medida que continuamos a subida, é que nos vamos apercebendo ainda mais da dimensão da Serra – o seu tamanho parece aumentar a cada curva. Entra o jogo mental de não desistir: a paisagem ajuda a manter a força de vontade em cima. A cada pedalada ficamos mais perto do nosso objectivo.

Subir uma estrada de montanha deste calibre é um exercício de humildade: sentimos-nos mesmo pequenos.

 

Já na estrada de terra batida, tenho um furo. Aquele galho cheio de espinhos decidiu atravessar-se mesmo à frente da bicicleta. E para ajudar, a minha bomba de quadro desistiu de encher pneus. Felizmente tinha uma mini bomba de urgência que deu para continuar caminho até à nossa próxima paragem. O almoço. O saco veio cheio de queijo da serra, pão a sério e doce. Claro que a cafeteira também veio.

Até à Torre, ainda teríamos de subir mais. As últimas pedaladas são sempre as mais difíceis. Mais difícil é ver que a Torre e tudo o que o rodeia é feio. Um centro comercial terrível. Um parque de estacionamento ainda pior. Domingueiros com as suas dominguices. Mas não subimos até cá acima para ver coisas feias. Abstemo-nos destas vistas e concentramos-nos noutras. Cá de cima, podemos ver longe. Muito longe. Valeu a pena.

 

As montanhas sempre tiveram algo de mítico. Acima do plano da existência profana do dia a dia, o sagrado das alturas contrasta com o quotidiano. O ar é fresco e limpo. O vento frio corta. O céu, a nossos pés.

 

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