Porquê recuperar?

Escolhemos o caminho, o de cuidadosamente desenterrar objectos do passado, porque acreditamos que a Terra e seus recursos são demasiado preciosos para serem esbanjados no fabrico de infinitos bens materiais. A opção estética também tem o seu peso. Nada vence as finas linhas de uma bicicleta italiana de aço, ou uma René Hersé francesa clássica, quase toda feita á mão. O que nos traz ao seguinte ponto: é óbvio que nem tudo no passado seria feito á mão. Mas a verdade é que haveria sem dúvida um muito maior envolvimento de mão humana. Ou seja, quando salvamos uma velha bicicleta, máquina de escrever ou caneta de tinta permanente, há anos esquecida numa qualquer gaveta, não só nos estamos a revoltar contra esta sociedade de consumo descontrolado como também poupamos os preciosos recursos naturais. Acima de tudo, mantemos vivo uma ligação com os nossos antepassados e seu modo de vida. Ao continuarmos a usar algo que estaria destinado á sucata, estamos também a respeitar o trabalho de dezenas de trabalhadores que, com as suas mãos, transformaram os tubos de aço em perfeitos e elegantes quadros de bicicleta ou que dobraram a chapa fina e juntaram as dezenas de peças móveis que agora são a máquina de escrever em que este artigo foi escrito.

rene herse

Um exemplo clássico de uma René Hersé. Intemporal!

Recuperar e restaurar é também o caminho mais difícil. Exige paciência e dedicação. Exige conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, muitas vezes adquiridos através de tentativa e erro. Ao escolhermos o caminho mais difícil, estamos de certeza a agir em não conformidade com as massas consumidoras. Estamos sim  a caminhar para uma existência mais livre, pois o caminho que seguimos é o nosso. Não comprámos este modo de vida num qualquer centro comercial, mas sim descobrimo-lo em inúmeras feiras de velharias, sotãos e garagens. Sucateiros e caixotes do lixo.

Até aonde cada um decide levar este modo de vida será escolha individual. Não devemos viver para os bens materiais. Mas, alguns bens materiais fazem parte da nossa vida, a um nível emocional. Logo, faz todo o sentido em preservar estes mesmos objectos. E há bens materiais que tornam a vida bem mais interessante e… linda!

rene herse final

Rival levanta vôo!

Finalmente, depois de alguns meses de restauro interrompido, a Rival está (quase) pronta a andar, ficando apenas a faltar o detalhe de escolher umas rolhas apropriadas para colocar no final do guiador, para servir de tampa e segurar a fita de guiador artesanal.

Velo Rival, completa com cesto de vime.

Como disse num post anterior, esta bicicleta é francesa e foi fabricada, segundo as minhas estimativas, algures nos anos 50 /60 numa terra chamada Moulins. É de certeza de fabrico artesanal em pequena escala. Não tem mudanças, mas o quadro está preparado para montar um manípulo de mudanças. Sem ser indexado, claro.

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As rodas são 650B. Os pneus originais eram de cor branca, mas infelizmente estavam demasiado ressequidos para sequer tentar montar. A Michelin, reconhecendo a clara superioridade desta medida obscura (que já não é assim tão obscura, afinal de contas, se formos a ver que 650B ou 29″ são a mesma medida), ainda fabrica pneus e camaras de ar.

O quadro foi polido com Duraglit, versão limpa metais. Foi uma primeira limpeza, apenas para tirar as manchas de ferrugem que aparecem por todo o quadro. Também não quis insistir muito, pois até a ferrugem tem o seu charme. Afinal de contas, esta é a boa ferrugem.

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O mesmo método foi usado em todos os cromados: guiador, aros, raios, cubos. As peças de alumínio tiveram uma limpeza mais superficial.

O selim, de cabedal, ainda está utilizável. Se é confortável, terei de perguntar à ciclista que a vai usar. A sua forma indica que é um selim de senhora – mais largo e curto.

A corrente foi apenas lubrificada com óleo normal. Com o uso, a ferrugem que poderá haver sairá.

As rodas estão sem empenos. E rolam livremente, aliás, supreendentemente livremente! O mesmo pode ser dito dos pedais. Comparemos isto com os pedais e rodas de hoje em dia… e então se tomarmos em conta que a bicicleta tem cerca de 60 anos, dá que pensar!

O travões sofreram uma limpeza geral. Não troquei os calços. Estes funcionam, para já.

Como medida de segurança, troquei os cabos de travão.

Os punhos estavam demasiado velhos para serem usados. Retirei-os com uma faca. A partir de umas calças de cabedal castanhas, cortei as fitas de guiador.

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Com um bocado de sisal podemos dar um aspecto bem mais bonito ao nosso guiador. Muito melhor do que usar fita isoladora!

Acho que o resultado obtido é bem mais bonito do que dois punhos brancos e de plástico.

O que resta agora é pedalar. E tirar fotografias mais detalhadas.

Projectos em Curso

Aqui na Velo Corvo, para além de ter um blog para manter, estou sempre com projectos em mente.

Vejamos:

Motobecane mixte: Comprada a um preço “jeitosinho” mas não em muito boa forma. Vamos ver como podemos devolver vida a uma bicicleta que de certeza estaria destinada à sucata.

Bertin Randonneur: Aqui está um projecto complicado! Esta Bertin foi comprada a um preço um bocado mais elevado, mas quem pode resistir a rodas 650 B e travões cantilever? Mais uma que estaria destinada a morrer. Parece ferrugem em forma de bicicleta, não? Veremos por quanto tempo!

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Rival Mixte: excelentemente bem conservada, mas a precisar de uma limpeza, esta Rival tem detalhes de construção únicos e bonitos, coisa que infelizmente é rara nos dias de hoje.

Velo Corvo Moncorvo: o primeiro quadro. Rodas 26”, geometria algures entre uma bicicleta de estrada e todo o terreno. Faz tudo. Ou quase. Estejam atentos.