Pintura – decapar ou pintar por cima?

Num post anterior, decidi que iria pintar a Motobecane de novo. Já não fazia sentido manter uma pintura sem grande valor histórico e que, ainda por cima, já está bastante danificada. E terei um ponto a favor, por pintar o quadro. Posso escolher a cor. Mais pontos a favor poderão ser soldar apoios que originalmente não estão presentes no quadro e retirar apoios que deixam de ser necessários, dependendo das peças que iremos montar.

O que estamos a fazer com a Motobecane não pode ser considerado um restauro. Não a vamos restaurar ao seu estado original. Vamos fazer renascer a bicicleta com um espírito retro.

Um aspecto técnico inportante na pintura é: pintar por cima da tinta já existente ou decapar e pintar de novo?
Mas antes de respondermos a esta pergunta, temos de responder às seguintes:

-quando tempo e dinheiro pretendemos gastar?

– qual a qualidade e durabilidade do esquema de pintura que queremos?

As respostas: quero gastar pouco e ter uma qualidade aceitável. Vou optar por pintar por cima da tinta existente.

Como posso saber se a pintura está suficientemente boa para pintar por cima? Como podemos ver nas fotografias do post anterior, não é visível muita ferrugem. Os pontos sem tinta não têm corrosão profunda.

O custo total será cerca de 20 euros,  e posso escolher a cor que quero. Se optássemos pela decapagem com jacto de areia, o preço seria 3 a 4 vezes mais.

Agora vem a parte mais difícil. Escolher a cor!

ral-colours-palette-chart

Motobecane – o que fazer?

Introdução

Num anterior artigo, falei de uma bicicleta Motobecane que tinha para recuperar.

motobecane vista geral

Vista geral da bicicleta. Faltam alguns componentes. Muito mal tratada pelo tempo…

 

Esta motobecane é uma bicicleta francesa, produzida em massa, provavelmente durante os anos 60. É  uma bicicleta simples, utilitária e sobretudo com uma qualidade estética invejável. Mas não agora, neste estado, pelo menos. A bicicleta chegou ás minhas mãos bastante mal tratada. Alguns componentes originais estavam ausentes e muitas das peças estavam cobertas de oxidação.

collage ferrugem

Podemos ver aqui a oxidação na zona aonde entra o espigão de selim, tubo superior e zona das ponteiras. Resumindo – vamos escolher uma cor nova!

Quando temos uma bicicleta nestas condições temos de fazer uma série de perguntas:

– quanto queremos gastar  ( tempo e dinheiro)

– como iremos usar a bicicleta ( pequenos passeios, uso diário, grau de exigência, etc)

– manter componentes originais ou renovar a bicicleta, mantendo apenas o “esqueleto”

Neste caso específico, decidi que iria manter apenas o esqueleto ( quadro, garfo, avanço, guiador, espição de selim). Considerei o facto das rodas estarem já bastante estragadas, oxidação nos aros, cubos velhos e impossibilidade de montar mudanças recentes. Ao trocarmos as rodas, transmissão e travões, estamos basicamente a “actualizar” a bicicleta. Esta actualização terá uns toques retro, como veremos depois. A vantagem de seguirmos este caminho é termos uma bicicleta mais robusta e uma maior acessibilidade a material em 2a mão a baixos preços e ao mesmo tempo recentes.

collage desviador

Os aros cromados completamente oxidados… e o desviador vai desviado para outro projecto.

Um ponto importante e prático a reter: nestas bicicletas antigas, é muito provável haverem parafusos calcinados. Geralmente consegue-se contornar estes problemas. Existem casos em que as peças calcinadas podem inviabilizar o resto da bicicleta, ou tornar mais difícil o seu restauro. Estou a falar do avanço e espigão de selim. Nesta bicicleta tive sorte pois tanto o espigão de selim como o avanço saíram bem.

A decisão de repintar e trocar muitas peças será de cada um. Se esta bicicleta estivesse em boas condições, nunca a iria decapar e pinta-la de novo. E manteria os componentes originais.

Próxima parte: pintura – decapar ou pintar por cima?

A arte de teimosamente retratar à moda antiga

Este Sábado, uma andorinha disse-me que o estúdio Silverbox estava com uma simpática promoção. Iríamos viajar no tempo para fazermos o nosso retrato tal e qual se fazia há umas largas décadas. O Corvo não poderia perder esta oportunidade e logo cedo bateu as suas asas até São Bento. Logo á entrada, somos cumprimentados por uma simpática menina que nos convida a entrar. Para além de sermos cumprimentados pela menina Rute, somos cumprimentados por uma máquina de escrever antiga, ladeada de algumas máquinas fotográficas clássicas. O Corvo estava no céu.

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As paredes cheias de retratos bonitos…

A menina não estava sozinha, e aparece o menino Filipe que nos convida a conhecer o estúdio. Não é só o retrato que é feito á moda antiga – o ambiente é também ele “antigo”. O estúdio é , por si só, uma obra de arte, sendo ele próprio parte do ritual de tirar o retrato. Um claro contraste aos dias de hoje, cheios de excessos fotográficos em que uma sanduiche comida numa esplanada se torna uma valiosa reportagem fotográfica.

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Sentamo-nos no magnifico sofá antigo, ajustamos a pose. O Filipe e a Rute explicam-nos o que devemos fazer. Fixar o olhar um bocadinho acima da objectiva. Endireitar as costas. Quando ele disser, temos de ficar imóveis durante 3 segundos. Isto não são fotografias tipo passe.

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A bonita máquina fotográfica.

Um, dois, três e já está.  Rapidamente vamos para o quarto escuro para assistir á revelação. Não me recordo dos nomes dos químicos usados. Gosto de pensar que é uma espécie de ritual mágico, de onde o nosso retrato nasce da escuridão.

 

colagem estudio

Da escuridão até ao retrato.

É sempre bom conhecer pessoas  como o Filipe e a Rute que partilham connosco uma maneira de fazer as coisas. No caso do estúdio Silverbox, de certeza que haverão maneiras mais rápidas de tirar retratos. Mas de certeza que esses métodos serão muito menos bonitos e poéticos.

Vivemos num mundo de 0s e 1s. Aonde estarão esses 0s e 1s daqui a 100 anos? A foto da sanduiche tirada numa qualquer esplanada perder-se-á num mar de lixo digital efémero.

Mas o meu retrato, com cuidado, durará 100 anos.