Tudo para correr mal

Continuando a cruzada contra tudo o que é demasiado moderno, hoje viro o meu martelo para as rodas de crabone.
É sabido que rodas leves aumentam a leveza móvel da bicicleta. Mas convém, como aliás em tudo na vida, um equilíbrio.

No caso das rodas Cosmic Carbone Ultimate da Mavic, o equilíbrio foi conseguido: muito dinheiro para a Mavic e rodas perigosamente leves para o ciclista. As rodas com nome de nave espacial custam 2900 euros. O par. Pelo menos os pneus já vêm incluídos no preço.

As rodas Cósmicas de Crabone podem agora rolar em segurança.

Pura magia.

 

Vejamos o que a Mavic tem a dizer sobre as Crabone Cósmicas:

Road & triathlon wheels Cosmic Carbone Ultimate
The Wheel-Tyre System chosen most often by Pro Tour teams. Its full carbon monobloc design perfectly unifies rims, spokes and hubs. Our new proprietary TgMAX technology further enhances braking performance while the new Yksion Pro feather light tubular tyres make it impossible to catch.
Weight : 1185 grams (pair of wheel)

Impressionante! As rodas são mesmo TODAS em Crabone. E são impossíveis de apanhar. Com um preço de 2900 euros, não é de admirar. E têm nome de nave espacial – este ponto é importante.

Mas o cerne da questão é este: quantos quadros de carbono antigos é que vêm por aí a andar pelas estradas fora? Pois. Não muitos. O carbono não dura para sempre. Nada dura para sempre. Não quero dizer com isto que não devam haver peças leves. Não sou assim tão extremista. Mas rodas totalmente feitas em Crabone?

Acho que toda esta loucura tecnológica está a ir longe demais. Para além de retirar o lado divertido do ciclismo, transforma tudo numa competição de joalharia velocipédica.

E, pessoalmente, continuo a achar que rodas com raios 2mm, 36 furos e cabeças em inox duram décadas. E não custam 2900 euros.

S24O – o que levar?

Não podemos ir dormir ao relento para uma qualquer Serra preparados apenas com uma camisola, umas sanduíches de panado no bolso e meia garrafa de coca-cola. Isso seria receita para nunca mais acampar na vida.

Para acamparmos como deve ser, precisamos de levar algumas coisas.

Bicicleta carregada para um S24O. Bolsa de selim gigante Carradice Nelson Longflap, alforge feito a partir de um saco militar e tenda ultra-leve.

Bicicleta carregada para um S24O. Bolsa de selim gigante Carradice Nelson Longflap, alforge feito a partir de um saco militar e tenda ultra-leve.

Abrigo: pessoalmente não gosto de dormir sem tenda, por isso levo sempre comigo uma tenda individual leve. Para o clima que temos em Portugal, dá para todo ano. Para dormir, tenho dois sacos-cama. Um de Verão e outro de Inverno. Consultando de antemão as temperaturas, podemos escolher o adequado, para não irmos demasiado carregados. Se bem que, por vezes, isto é mais facilmente dito que feito…

A minha tenda num sítio perfeito.

A minha tenda num sítio perfeito.

Levo também um colchão de campismo, daqueles rolos simples, de esponja. Pesam pouco, são baratos e não furam. E claro, para completar o conjunto, uma almofada de campismo.

Ao contrário dos colchões insufláveis, este nunca esvazia. Leve e barato!

Ao contrário dos colchões insufláveis, este nunca esvazia. Leve e barato!

Uma dica: levo sempre tampões de ouvido. Ajudam a isolar algum barulho causado pelo vento.
Roupa: sou friorento e não me apetece passar frio à noite. Se calhar, por vezes, levo coisas a mais, mas preferível ter e não usar do que querer usar e não ter. A regra geral a seguir é: à noite e fora de casa no meio da Serra faz frio. Às vezes muito frio. Por isso, podemos estar de calções e camisa durante o dia e à noite encasacados até ao telhado.
Para poder combater bem o frio, levo várias camadas finas, que posso vestir ou despir conforme a temperatura. No inverno é essencial roupa interior comprida. É a nossa primeira camada. Convém levar um gorro e luvas para usar à noite. E um casaco, claro, por cima de uma camisola de lã, por exemplo. A sensação de frio varia de pessoa para pessoa e só cada um conseguirá adaptar a quantidade de roupa a levar com o frio ou calor que fará.

Cozinha ao ar livre e com vista.

Cozinha ao ar livre e com vista .

Comida: a parte mais importante, logo a seguir ao pedalar e local para acampar. A ideia é não comer sanduiches nem passar fome. Isto implica levar um fogão de campismo e cozinhar. Não é de todo ideal fazer uma fogueira para cozinhar, especialmente nos meses mais quentes. A solução é usar um fogão de campismo. Existem dois tipos principais: os que usam uma botija de gás pequena e os que usam álcool numa pequena lamparina. Já usei os dois, e ambos funcionam bem. Para comer, é usar a imaginação e a internet. Na Velo Corvo, não há pequeno- almoço sem tortilha, nem jantar sem massas com molho de tomate. É fácil de preparar e toda a gente dorme contente. Juntar a isto pão, um queijo bom, bolachas, chocolate, gomas, café (não instantâneo) e sumo para ter a festa feita. Não esquecer a água, ora para cozinhar, ora para beber. Para duas pessoas, geralmente 3 a 4 litros chega e sobra.

Extras: máquina fotográfica, livro para quem quiser ler, bloco de notas…

Toca a preparar o próximo campismo!

As fotografias saem sempre melhor nas pequenas aventuras velocipédicas. A Leica M6 fica bem na foto e tira boas fotos.

As fotografias saem sempre melhor nas pequenas aventuras velocipédicas. A Leica M6 fica bem na foto e tira boas fotos.

Tio, o Ciclista Irritado e o novo Código da Estrada

O Tio ainda é do tempo de ir à Junta de Freguesia local para tirar a licença de velocípede. E ainda se lembra de ver matrículas para bicicletas a serem usadas, surpresa, em bicicletas. E acima de tudo, lembra-se vagamente de um anúncio nos anos 80 a explicar como é que os ciclistas deviam circular nas estradas, alertando para a necessidade do uso de reflectores e luzes, sinais de mão, etc etc.

Mas, lá para os anos 90, saiu o Totobola a toda a gente e todos compramos carros e vivemos felizes para sempre.

totobola-de-abril-de-1975

Errado.

À esquerda, a 2ª Circular nos anos 60. À direita, a maravilha do progresso- a 2ª Circular nos dias de hoje.

À esquerda, a 2ª Circular nos anos 60. À direita, a maravilha do progresso- a 2ª Circular nos dias de hoje.

O suposto conforto e qualidade de vida trazidos pelo maravilhoso automóvel tornaram-se em fardos financeiros e mentais. O típico português já é nervoso por natureza. Chora a ver penáltes do Esportingue, discute amplamente e emocionalmente lesões do novo ponta de lança do Esport Lisboa e Benfica, o Robalinho, mas é incapaz de ligar à mãe para saber como é que ela está e acima de tudo, passa horas a obcecar com a sua extensão corporal preferida: o carro.

Robalinho recebe a camisola do Esporte Lisboa e Benfica do actual presidente, Pinto da Costa.

Robalinho recebe a camisola do Esporte Lisboa e Benfica do actual presidente, Pinto da Costa.

Ora, quando a sua preferida extensão é colocada em risco, o português fica naturalmente nervoso, para adicionar à já nervosa mentalidade do “deixaguiarquemsabe” e “acartadevetetersaidonafarinhaamparo” ou “oqueéqueesteciclistaandaparaaquiafazerdeviasétiraropasse”.

Mas a ilha parece tão real...

Mas a ilha parece tão real…

E, para adicionar aos ataques ao seu orçamento de fatos de treino do Benfica, cerveja, ecrãs LCD de 398 polegadas (com ficha HDCMIE.2), vem agora o terrível código da estrada trazer novidades esotéricas tais como circular nas rotundas como um ser humano com capacidades de pensar nos outros, limites de álcool no sangue pensados (que horror) não no nível de masculinidade do condutor mas sim, e vejam só, no que especialistas que estudaram o assunto dizem ser o nível que garante o tempo de resposta necessário a conduzir uma viatura, enfim.
E em jeito de o Esportingue perder mais uma vez contra o Esporte Clube Santa Agonia dos Aflitos, lá vem o código da estrada ainda com mais duras novidades ao apressado condutor: mais direitos para o ciclista.

Começo por dizer que, por defeito, qualquer medida para defender o ciclista ou como lhes chama o código da estrada, utilizador vulnerável, é boa. Portugal é um país aonde geralmente, não se passa fome. As crianças estão cada vez mais obesas (tanto no corpo como na mente). Um pouco de actividade física não faz mal a ninguém.

Zás. Depois para a sobremesa, é jogar um bocadito de Playstation para fazer a digestão.

Zás. Depois para a sobremesa, é jogar um bocadito de playstation para fazer a digestão.

Outro ponto a favor da maior utilização da bicicleta é o bem estar de todos. Lá estou eu a pensar no bem da comunidade, mas, andar de bicicleta é bem mais agradável do que guiar um automóvel. Faz zero poluição. Menos barulho.

Mesmo que a tua bicicleta seja um andaime asiático, pedala. Pedala com orgulho. 

Lisboa Bike Tour- a promover o uso de andaimes com rodas.

Lisboa Bike Tour- a promover o uso de andaimes com rodas.

Estes pedalam em andaimes e não se queixam!

Estes pedalam em andaimes e não se queixam!

E antes de começarem a chiar contra as “longas distâncias” ou “subidas” pensem que num futuro próximo, quando estiverem entravados num qualquer hospital público devido a doenças relacionadas com a falta de actividade física, que se calhar teria sido melhor começar agora a largar esse rissol.

"Era um café e um croquete. Não, traga-me antes um café, um croquete e um rissol." Ouvi isto uma vez numa esplanada. Está tudo bem.

“Era um café e um croquete. Não, traga-me antes um café, um croquete e um rissol.” Ouvi isto uma vez numa esplanada. Está tudo bem.

A mudança na mentalidade é para ser feita hoje.

Vamos então ver as principais mudanças que esse malvado código da estrada traz para o ciclista.

1- Prioridade para a bicicleta, se esta se apresentar pela direita.

Que coisa horrível. Já era suficiente mau o condutor ter de parar para dar prioridade a outro inimi…. condutor quanto mais um ciclista! Qualquer dia, querem que eu pense nos outros!, diz o condutor.

O Tio diz: se os senhores condutores estão com pressa, que saíssem de casa mais cedo.

2- Fim da obrigatoriedade de várias bicicletas terem de circular em fila, ou seja, as bicicletas podem circular lado a lado.

 

Claramente, Gilson em fora de jogo.

Claramente, Gilson em fora de jogo.

Mais um penálte mal marcado contra o Esportigue. Se as estradas já estão cheias de outros condutores, agora ainda vão estar mais cheias destes lentos ciclistas a atrasar a minha vida ocupada.

O Tio diz: se os senhores condutores estão com pressa, que saíssem de casa mais cedo.

3- Ao ultrapassar um ciclista, e obrigatório deixar uma distancia de segurança de 1,5m.

O Código da Estrada não diz se é obrigatório ou não andar com uma régua, mas a lei diz, em espírito,  se fores ultrapassar um ciclista não te comportes como um animal e não faças razias ao ciclista.

O Tio diz: se os senhores condutores estão com pressa, que saíssem de casa mais cedo. E não coloquem os outros em risco.

4- Fim da obrigatoriedade de circular o mais a direita possível.

Ou seja, se a  berma da estrada estiver toda escavacada, o ciclista não é obrigado a circular por lá, podendo circular na porção da faixa não escavacada. Mas cautela! Está a circular em território sagrado do condutor!

Ponto positivo para os utilizadores de rodas de Crabone!

 

As rodas Cósmicas de Crabone podem agora rolar em segurança.

As rodas Cósmicas de Crabone podem agora rolar em segurança.

Nota final: alguns nervosos vieram alegar que estas novas leis iriam causar um aumento de acidentes. A causa dos acidentes é geralmente o condutor.  E já está demonstrado que a grande maioria dos acidentes são devidos a excesso de velocidade, manobras perigosas, álcool no sangue, acrobacias diversas, etc etc.

As estradas não são pistas de corrida.