Da sucata à estrada

Há já uns meses, falei-vos de uma Motobecane que estava a restaurar.
Finalmente, consegui terminá-la.

Quando a comprei, sabia que a tarefa iria ser difícil: pouco do material original iria ser aproveitado. As rodas, com aros em aço, estavam completamente enferrujadas. O mesmo se passava com a transmissão. Os travões não estavam muito melhores – as maxilas eram cada uma de sua espécie. Os pneus, claro: ressequidos.

Resumindo, só iria aproveitar o quadro, garfo, caixa de direcção (de rosca, francesa), pára-lamas, avanço, espigão de selim e guiador.

 

motobecane vista geral

Mais ou menos o que consegui aproveitar.

 

collage ferrugem

Ferrugem, ferrugem em todo lado!

 

Depois de ter desmontado a bicicleta, levei-a para ser decapada e lacada. Nestes casos em que a ferrugem está um pouco por todo lado, a melhor solução passa mesmo pela decapagem a jacto de areia. Retiramos a tinta velha e damos uma limpeza em termos de ferrugem ao quadro.

A lacagem confere uma resistência boa à camada final.

Posto isto, e após algumas horas de montagem, aqui fica o resulta8do final.

Uma bicicleta leve,  personalizada e original que já faz a sua dona muito feliz, sem bem que ainda falta um cesto à frente! Prova bem que estas bicicletas francesas, se bem cuidadas, duram décadas. Infelizmente, esta não foi bem cuidada. Mas, com algumas peças substituídas, rola outra vez. Preferível a ir para a sucata!

final1

O filtro faz as coisas parecerem mais bonitas.

 

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Sisal e fita de borracha (stock antigo).

 

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Manetes nacionais com sisal.

 

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Sisal usado também para segurar a bicha de travão traseiro ao quadro.

 

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A escolha óbvia: Brooks B17. Autocolante personalizado.

 

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Autocolante personalizado em vinil! Resultado final: excelente. Obrigado BKSTICKERS!

 

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Vamos então à lista final. Mantive:

Quadro e garfo: Motobecane

Caixa de direcção: genérica francesa

Guiador: original Motobecane

Avanço: Atax francês

Espigão selim: genérico

Pára-lamas: originais Motobecane

Porta-bagagens: originais Motobecane

 

Peças novas e “novas”:

-Manetes travão: fabrico nacional

-Travões: Lusito, fabrico nacional

-Eixo pedaleiro: Shimano selado

-Pedaleira: Shimano STX

-Desviador traseiro: Shimano LX

-Desviador dianteiro: Shimano Deore

-Corrente: Shimano

-Manípulos mudanças: fabrico nacional

-Selim: Brooks B17S

-Pneus: Schwalble creme, 700×32

-Autocolantes personalizados BKStickers

A agonia de comprar uma bicicleta no OLX, parte IV

Ter uma bicicleta de corrida está na moda. E especialmente se for antiga e “ter vindo do estrangeiro”.
Para aqueles que queriam mesmo mesmo uma bicicleta de estrada, restauradinha e vermelha, aqui está a vossa oportunidade.

O anúncio diz que a pintura está em “excelente estado, como se pode ver”. Posso posso, aliás, não consigo é deixar de ver!

Zás. Não falha.

Zás. Não falha.

 

Para quê pintar apenas o quadro quando se pode pintar logo a bicicleta toda da mesma cor? Tanto trabalhinho poupado, com esta pintura ponta de lança. Prova de que afinal é possível restaurar uma bicicleta usando apenas uma lata de tinta.

Mas as boas notícias não para aqui. A pedaleira é americana. O que para quem percebe de bicicletas quer dizer apenas uma coisa: sucata.

Por cem moedas de euro, vinte notas de conto na moeda antiga, parece ser uma compra acertada.

O Verão está à porta!

Tio, o ciclista indisciplinado

Em recentes declarações , o presidente da ANSR (Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária), visto na foto abaixo com um bigode (sinal claro de que, na estrada quem manda é ele), disse que “um dos problemas grandes que existe hoje é a indisciplina dos ciclistas”. Adiciona que o problema será resolvido com a publicação de um guia muito em breve. Resta saber quem é que irá ler esse guia.

Eu não.

"Zé Carlos, depois disto, vamos aquele restaurã que tem aqueles bifinhos?"

“Zé Carlos, depois disto, vamos aquele restaurã que tem aqueles bifinhos?”

Eu, que não sou autoridade nacional em nada, quase que poderia apostar que um dos grandes problemas que existe hoje é os portugueses considerarem as estradas pistas de corrida de exibição das suas extensões corporais automobilísticas para auto afirmação. Isto acelerado com o combustível de eleição. Não estou a falar de pitroile. Estou a falar de bebidas alcoólicas. Esta mistura tem tudo para correr bem. Mas o grande problema são os ciclistas.

Vejamos então outros problemas, mais pequenos, de certeza:

Os braços estão cruzados porque não são precisos para guiar. Quem guia é o bigode.

Os braços estão cruzados porque não são precisos para guiar. Quem guia é o bigode.

Taxista.

Rei da estrada, só consegue ver o que se passa à frente. Piscas? Espelhos retrovisores? Quando tirou a carta na tropa em Tancos, cinco minutos antes do almoço e com o Sargento Nervoso aos berros, não lhe falaram destas coisas. Outros tempos.

Supostamente, as capas que os taxistas usam no banco do condutor deveriam ser para acalmar, Diz que "faz bem às costas". Eu acho que só os irrita mais.

Supostamente, as capas que os taxistas usam no banco do condutor deveriam ser para acalmar, Diz que “faz bem às costas”. Eu acho que só os irrita mais.

Pintarolas no carro alemão genérico. 

Golf TDI. Dos 0 ao Parvalhãoparadonosemáforocomotodososoutros em 4 segundos.

Golf TDI. Dos 0 ao Parvalhãoparadonosemáforocomotodososoutros em 4 segundos.

Só porque pagas uma pesada prestação mensal ao banco, não te dá direito de guiares à parvalhão. Nota: uma vez, numa Massa Crítica, um indivíduo guiando um Audi A3 cor mostarda ameaçou um ciclista, dizendo que o “ia furar todo”. Ao tentar tirar a pistola, tirou um saco cheio de ervas aromáticas (foi que consegui ver). Irritado, disse que tinha de “ir trabalhar” – devia trabalhar na Telepizza de Albarraque, perto do Bairro da Ladrávia. Arrancou a alta velocidade. O semáforo estava vermelho. Ficou parado a 200 metros de distância à espera do verde. Vale a pena ter aquele TDI.

As jantes espaciais dizem que sou uma pessoa especial.

As jantes espaciais dizem que sou uma pessoa especial.

 

 

Tipo iá, abusado, LoLoLolLol

Tipo iá, abusado, LoLoLolLol.

 

Papa-reformas:

E não esqueçamos os papa-reformas, ou se quiserem usar o termo técnico, mata-velhos.
Estas “viaturas” com motor de corta relva são na sua maioria guiadas por dinossauros que já não deviam guiar desde 1977. Cautela.

Prontinho para cortar a relva e fazer rotundas em contra-mão.

Prontinho para cortar a relva e fazer rotundas em contra-mão.

 

Que azar, e só faltava cortar a relva naquele cantinho.

Que azar, e só faltava cortar a relva naquele cantinho.

Sarjetas, buracos na estrada, valetas, “bermas”, carris, etc.

PTA PTA PTA PTA lá se vai o boion carissimo.

PTA PTA PTA PTA lá se vai o boion caríssimo.

Como é amplamente conhecido, as estradas portuguesas não são exactamente lisas. Quem pedala, em Lisboa, por exemplo, tem de gramar com todo o obstáculo de formato e feitio. Ora são as obras intermináveis, ora é o retalho de alcatrão que foi remendado desinteressadamente, deixando aquela lomba agradável para os pulsos, ora são os carris de eléctrico, ora são as tampas de esgoto fora de sítio, ora são as sarjetas cujos buracos coincidem exactamente com os pneus mais finos, ora…. Bem, entendem a ideia. Uma vez, fiquei com o pneu da frente preso no carril (não se riam, pois já vos aconteceu. E se se riram, está para acontecer em breve) e caí. Doeu. O que vale é que o condutor do carro que vinha atrás parou logo para me ajudar. Ah, espera. Simplesmente contornou-me enquanto estava no chão. Obrigado, condutor. Acho que tinha um Volkswagen moderno. Possivelmente TDI.

 

Ciclovias.

Foto da Mubi. Roubei. Não faz mal porque é para dizer mal da ciclovia.

Foto da Mubi. Roubei. Não faz mal porque é para dizer mal da ciclovia. “ciclovia”, ahaha. Ou LOL em moderno.

Sim, ciclovias. Porque pedalar nelas é mesmo um problema. Vejo de facto muitas coisas em cima de ciclovias. Carros estacionados. Pessoas a passearem a pé tranquilamente a questionarem-se porque é que o passeio agora é vermelho. Carrinhos de bebé. Bicicletas nem por isso.

 

Num país aonde as finanças sorteiam carros, espera-se de tudo. Eu pessoalmente, tenho comprado o pão um a um, pedindo factura individual para cada carcaça. Mas ainda não tive sorte. Já que pago os meus impostos, gostaria de ver alguma coisa de volta. Aquele Audi TDI fazia jeito, para trocar por boions, ou lá o que é.

Já que estradas, não as tenho. Por isso, vou pedalar indisciplinadamente.

Nota final.

Contador de bicicletas em Bremen. Quem souber estrangeiro, entende a mensagem.

Contador de bicicletas em Bremen. Quem souber estrangeiro, entende a mensagem.