Tio, o ciclista indisciplinado

Em recentes declarações , o presidente da ANSR (Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária), visto na foto abaixo com um bigode (sinal claro de que, na estrada quem manda é ele), disse que “um dos problemas grandes que existe hoje é a indisciplina dos ciclistas”. Adiciona que o problema será resolvido com a publicação de um guia muito em breve. Resta saber quem é que irá ler esse guia.

Eu não.

"Zé Carlos, depois disto, vamos aquele restaurã que tem aqueles bifinhos?"

“Zé Carlos, depois disto, vamos aquele restaurã que tem aqueles bifinhos?”

Eu, que não sou autoridade nacional em nada, quase que poderia apostar que um dos grandes problemas que existe hoje é os portugueses considerarem as estradas pistas de corrida de exibição das suas extensões corporais automobilísticas para auto afirmação. Isto acelerado com o combustível de eleição. Não estou a falar de pitroile. Estou a falar de bebidas alcoólicas. Esta mistura tem tudo para correr bem. Mas o grande problema são os ciclistas.

Vejamos então outros problemas, mais pequenos, de certeza:

Os braços estão cruzados porque não são precisos para guiar. Quem guia é o bigode.

Os braços estão cruzados porque não são precisos para guiar. Quem guia é o bigode.

Taxista.

Rei da estrada, só consegue ver o que se passa à frente. Piscas? Espelhos retrovisores? Quando tirou a carta na tropa em Tancos, cinco minutos antes do almoço e com o Sargento Nervoso aos berros, não lhe falaram destas coisas. Outros tempos.

Supostamente, as capas que os taxistas usam no banco do condutor deveriam ser para acalmar, Diz que "faz bem às costas". Eu acho que só os irrita mais.

Supostamente, as capas que os taxistas usam no banco do condutor deveriam ser para acalmar, Diz que “faz bem às costas”. Eu acho que só os irrita mais.

Pintarolas no carro alemão genérico. 

Golf TDI. Dos 0 ao Parvalhãoparadonosemáforocomotodososoutros em 4 segundos.

Golf TDI. Dos 0 ao Parvalhãoparadonosemáforocomotodososoutros em 4 segundos.

Só porque pagas uma pesada prestação mensal ao banco, não te dá direito de guiares à parvalhão. Nota: uma vez, numa Massa Crítica, um indivíduo guiando um Audi A3 cor mostarda ameaçou um ciclista, dizendo que o “ia furar todo”. Ao tentar tirar a pistola, tirou um saco cheio de ervas aromáticas (foi que consegui ver). Irritado, disse que tinha de “ir trabalhar” – devia trabalhar na Telepizza de Albarraque, perto do Bairro da Ladrávia. Arrancou a alta velocidade. O semáforo estava vermelho. Ficou parado a 200 metros de distância à espera do verde. Vale a pena ter aquele TDI.

As jantes espaciais dizem que sou uma pessoa especial.

As jantes espaciais dizem que sou uma pessoa especial.

 

 

Tipo iá, abusado, LoLoLolLol

Tipo iá, abusado, LoLoLolLol.

 

Papa-reformas:

E não esqueçamos os papa-reformas, ou se quiserem usar o termo técnico, mata-velhos.
Estas “viaturas” com motor de corta relva são na sua maioria guiadas por dinossauros que já não deviam guiar desde 1977. Cautela.

Prontinho para cortar a relva e fazer rotundas em contra-mão.

Prontinho para cortar a relva e fazer rotundas em contra-mão.

 

Que azar, e só faltava cortar a relva naquele cantinho.

Que azar, e só faltava cortar a relva naquele cantinho.

Sarjetas, buracos na estrada, valetas, “bermas”, carris, etc.

PTA PTA PTA PTA lá se vai o boion carissimo.

PTA PTA PTA PTA lá se vai o boion caríssimo.

Como é amplamente conhecido, as estradas portuguesas não são exactamente lisas. Quem pedala, em Lisboa, por exemplo, tem de gramar com todo o obstáculo de formato e feitio. Ora são as obras intermináveis, ora é o retalho de alcatrão que foi remendado desinteressadamente, deixando aquela lomba agradável para os pulsos, ora são os carris de eléctrico, ora são as tampas de esgoto fora de sítio, ora são as sarjetas cujos buracos coincidem exactamente com os pneus mais finos, ora…. Bem, entendem a ideia. Uma vez, fiquei com o pneu da frente preso no carril (não se riam, pois já vos aconteceu. E se se riram, está para acontecer em breve) e caí. Doeu. O que vale é que o condutor do carro que vinha atrás parou logo para me ajudar. Ah, espera. Simplesmente contornou-me enquanto estava no chão. Obrigado, condutor. Acho que tinha um Volkswagen moderno. Possivelmente TDI.

 

Ciclovias.

Foto da Mubi. Roubei. Não faz mal porque é para dizer mal da ciclovia.

Foto da Mubi. Roubei. Não faz mal porque é para dizer mal da ciclovia. “ciclovia”, ahaha. Ou LOL em moderno.

Sim, ciclovias. Porque pedalar nelas é mesmo um problema. Vejo de facto muitas coisas em cima de ciclovias. Carros estacionados. Pessoas a passearem a pé tranquilamente a questionarem-se porque é que o passeio agora é vermelho. Carrinhos de bebé. Bicicletas nem por isso.

 

Num país aonde as finanças sorteiam carros, espera-se de tudo. Eu pessoalmente, tenho comprado o pão um a um, pedindo factura individual para cada carcaça. Mas ainda não tive sorte. Já que pago os meus impostos, gostaria de ver alguma coisa de volta. Aquele Audi TDI fazia jeito, para trocar por boions, ou lá o que é.

Já que estradas, não as tenho. Por isso, vou pedalar indisciplinadamente.

Nota final.

Contador de bicicletas em Bremen. Quem souber estrangeiro, entende a mensagem.

Contador de bicicletas em Bremen. Quem souber estrangeiro, entende a mensagem.

 

Ler Mais

Tudo para correr mal

Continuando a cruzada contra tudo o que é demasiado moderno, hoje viro o meu martelo para as rodas de crabone.
É sabido que rodas leves aumentam a leveza móvel da bicicleta. Mas convém, como aliás em tudo na vida, um equilíbrio.

No caso das rodas Cosmic Carbone Ultimate da Mavic, o equilíbrio foi conseguido: muito dinheiro para a Mavic e rodas perigosamente leves para o ciclista. As rodas com nome de nave espacial custam 2900 euros. O par. Pelo menos os pneus já vêm incluídos no preço.

As rodas Cósmicas de Crabone podem agora rolar em segurança.

Pura magia.

 

Vejamos o que a Mavic tem a dizer sobre as Crabone Cósmicas:

Road & triathlon wheels Cosmic Carbone Ultimate
The Wheel-Tyre System chosen most often by Pro Tour teams. Its full carbon monobloc design perfectly unifies rims, spokes and hubs. Our new proprietary TgMAX technology further enhances braking performance while the new Yksion Pro feather light tubular tyres make it impossible to catch.
Weight : 1185 grams (pair of wheel)

Impressionante! As rodas são mesmo TODAS em Crabone. E são impossíveis de apanhar. Com um preço de 2900 euros, não é de admirar. E têm nome de nave espacial – este ponto é importante.

Mas o cerne da questão é este: quantos quadros de carbono antigos é que vêm por aí a andar pelas estradas fora? Pois. Não muitos. O carbono não dura para sempre. Nada dura para sempre. Não quero dizer com isto que não devam haver peças leves. Não sou assim tão extremista. Mas rodas totalmente feitas em Crabone?

Acho que toda esta loucura tecnológica está a ir longe demais. Para além de retirar o lado divertido do ciclismo, transforma tudo numa competição de joalharia velocipédica.

E, pessoalmente, continuo a achar que rodas com raios 2mm, 36 furos e cabeças em inox duram décadas. E não custam 2900 euros.

Ler Mais

Tio, o Ciclista Irritado e o novo Código da Estrada

O Tio ainda é do tempo de ir à Junta de Freguesia local para tirar a licença de velocípede. E ainda se lembra de ver matrículas para bicicletas a serem usadas, surpresa, em bicicletas. E acima de tudo, lembra-se vagamente de um anúncio nos anos 80 a explicar como é que os ciclistas deviam circular nas estradas, alertando para a necessidade do uso de reflectores e luzes, sinais de mão, etc etc.

Mas, lá para os anos 90, saiu o Totobola a toda a gente e todos compramos carros e vivemos felizes para sempre.

totobola-de-abril-de-1975

Errado.

À esquerda, a 2ª Circular nos anos 60. À direita, a maravilha do progresso- a 2ª Circular nos dias de hoje.

À esquerda, a 2ª Circular nos anos 60. À direita, a maravilha do progresso- a 2ª Circular nos dias de hoje.

O suposto conforto e qualidade de vida trazidos pelo maravilhoso automóvel tornaram-se em fardos financeiros e mentais. O típico português já é nervoso por natureza. Chora a ver penáltes do Esportingue, discute amplamente e emocionalmente lesões do novo ponta de lança do Esport Lisboa e Benfica, o Robalinho, mas é incapaz de ligar à mãe para saber como é que ela está e acima de tudo, passa horas a obcecar com a sua extensão corporal preferida: o carro.

Robalinho recebe a camisola do Esporte Lisboa e Benfica do actual presidente, Pinto da Costa.

Robalinho recebe a camisola do Esporte Lisboa e Benfica do actual presidente, Pinto da Costa.

Ora, quando a sua preferida extensão é colocada em risco, o português fica naturalmente nervoso, para adicionar à já nervosa mentalidade do “deixaguiarquemsabe” e “acartadevetetersaidonafarinhaamparo” ou “oqueéqueesteciclistaandaparaaquiafazerdeviasétiraropasse”.

Mas a ilha parece tão real...

Mas a ilha parece tão real…

E, para adicionar aos ataques ao seu orçamento de fatos de treino do Benfica, cerveja, ecrãs LCD de 398 polegadas (com ficha HDCMIE.2), vem agora o terrível código da estrada trazer novidades esotéricas tais como circular nas rotundas como um ser humano com capacidades de pensar nos outros, limites de álcool no sangue pensados (que horror) não no nível de masculinidade do condutor mas sim, e vejam só, no que especialistas que estudaram o assunto dizem ser o nível que garante o tempo de resposta necessário a conduzir uma viatura, enfim.
E em jeito de o Esportingue perder mais uma vez contra o Esporte Clube Santa Agonia dos Aflitos, lá vem o código da estrada ainda com mais duras novidades ao apressado condutor: mais direitos para o ciclista.

Começo por dizer que, por defeito, qualquer medida para defender o ciclista ou como lhes chama o código da estrada, utilizador vulnerável, é boa. Portugal é um país aonde geralmente, não se passa fome. As crianças estão cada vez mais obesas (tanto no corpo como na mente). Um pouco de actividade física não faz mal a ninguém.

Zás. Depois para a sobremesa, é jogar um bocadito de Playstation para fazer a digestão.

Zás. Depois para a sobremesa, é jogar um bocadito de playstation para fazer a digestão.

Outro ponto a favor da maior utilização da bicicleta é o bem estar de todos. Lá estou eu a pensar no bem da comunidade, mas, andar de bicicleta é bem mais agradável do que guiar um automóvel. Faz zero poluição. Menos barulho.

Mesmo que a tua bicicleta seja um andaime asiático, pedala. Pedala com orgulho. 

Lisboa Bike Tour- a promover o uso de andaimes com rodas.

Lisboa Bike Tour- a promover o uso de andaimes com rodas.

Estes pedalam em andaimes e não se queixam!

Estes pedalam em andaimes e não se queixam!

E antes de começarem a chiar contra as “longas distâncias” ou “subidas” pensem que num futuro próximo, quando estiverem entravados num qualquer hospital público devido a doenças relacionadas com a falta de actividade física, que se calhar teria sido melhor começar agora a largar esse rissol.

"Era um café e um croquete. Não, traga-me antes um café, um croquete e um rissol." Ouvi isto uma vez numa esplanada. Está tudo bem.

“Era um café e um croquete. Não, traga-me antes um café, um croquete e um rissol.” Ouvi isto uma vez numa esplanada. Está tudo bem.

A mudança na mentalidade é para ser feita hoje.

Vamos então ver as principais mudanças que esse malvado código da estrada traz para o ciclista.

1- Prioridade para a bicicleta, se esta se apresentar pela direita.

Que coisa horrível. Já era suficiente mau o condutor ter de parar para dar prioridade a outro inimi…. condutor quanto mais um ciclista! Qualquer dia, querem que eu pense nos outros!, diz o condutor.

O Tio diz: se os senhores condutores estão com pressa, que saíssem de casa mais cedo.

2- Fim da obrigatoriedade de várias bicicletas terem de circular em fila, ou seja, as bicicletas podem circular lado a lado.

 

Claramente, Gilson em fora de jogo.

Claramente, Gilson em fora de jogo.

Mais um penálte mal marcado contra o Esportigue. Se as estradas já estão cheias de outros condutores, agora ainda vão estar mais cheias destes lentos ciclistas a atrasar a minha vida ocupada.

O Tio diz: se os senhores condutores estão com pressa, que saíssem de casa mais cedo.

3- Ao ultrapassar um ciclista, e obrigatório deixar uma distancia de segurança de 1,5m.

O Código da Estrada não diz se é obrigatório ou não andar com uma régua, mas a lei diz, em espírito,  se fores ultrapassar um ciclista não te comportes como um animal e não faças razias ao ciclista.

O Tio diz: se os senhores condutores estão com pressa, que saíssem de casa mais cedo. E não coloquem os outros em risco.

4- Fim da obrigatoriedade de circular o mais a direita possível.

Ou seja, se a  berma da estrada estiver toda escavacada, o ciclista não é obrigado a circular por lá, podendo circular na porção da faixa não escavacada. Mas cautela! Está a circular em território sagrado do condutor!

Ponto positivo para os utilizadores de rodas de Crabone!

 

As rodas Cósmicas de Crabone podem agora rolar em segurança.

As rodas Cósmicas de Crabone podem agora rolar em segurança.

Nota final: alguns nervosos vieram alegar que estas novas leis iriam causar um aumento de acidentes. A causa dos acidentes é geralmente o condutor.  E já está demonstrado que a grande maioria dos acidentes são devidos a excesso de velocidade, manobras perigosas, álcool no sangue, acrobacias diversas, etc etc.

As estradas não são pistas de corrida.

 

Ler Mais