Porquê recuperar?

Escolhemos o caminho, o de cuidadosamente desenterrar objectos do passado, porque acreditamos que a Terra e seus recursos são demasiado preciosos para serem esbanjados no fabrico de infinitos bens materiais. A opção estética também tem o seu peso. Nada vence as finas linhas de uma bicicleta italiana de aço, ou uma René Hersé francesa clássica, quase toda feita á mão. O que nos traz ao seguinte ponto: é óbvio que nem tudo no passado seria feito á mão. Mas a verdade é que haveria sem dúvida um muito maior envolvimento de mão humana. Ou seja, quando salvamos uma velha bicicleta, máquina de escrever ou caneta de tinta permanente, há anos esquecida numa qualquer gaveta, não só nos estamos a revoltar contra esta sociedade de consumo descontrolado como também poupamos os preciosos recursos naturais. Acima de tudo, mantemos vivo uma ligação com os nossos antepassados e seu modo de vida. Ao continuarmos a usar algo que estaria destinado á sucata, estamos também a respeitar o trabalho de dezenas de trabalhadores que, com as suas mãos, transformaram os tubos de aço em perfeitos e elegantes quadros de bicicleta ou que dobraram a chapa fina e juntaram as dezenas de peças móveis que agora são a máquina de escrever em que este artigo foi escrito.

rene herse

Um exemplo clássico de uma René Hersé. Intemporal!

Recuperar e restaurar é também o caminho mais difícil. Exige paciência e dedicação. Exige conhecimentos adquiridos ao longo do tempo, muitas vezes adquiridos através de tentativa e erro. Ao escolhermos o caminho mais difícil, estamos de certeza a agir em não conformidade com as massas consumidoras. Estamos sim  a caminhar para uma existência mais livre, pois o caminho que seguimos é o nosso. Não comprámos este modo de vida num qualquer centro comercial, mas sim descobrimo-lo em inúmeras feiras de velharias, sotãos e garagens. Sucateiros e caixotes do lixo.

Até aonde cada um decide levar este modo de vida será escolha individual. Não devemos viver para os bens materiais. Mas, alguns bens materiais fazem parte da nossa vida, a um nível emocional. Logo, faz todo o sentido em preservar estes mesmos objectos. E há bens materiais que tornam a vida bem mais interessante e… linda!

rene herse final

Ler Mais

Alma

Comecei a mexer a sério em bicicletas aos 14 anos e pelos 17 já trabalhava numa loja de bicicletas.
Desde sempre, estive rodeado de dezenas de bicicletas. Umas não causam em mim grande impressão enquanto com outras crio uma relação. E essa relação traz com ela uma série de mitologias. Por exemplo. É mais do que sabido que quando se monta uma bicicleta especial, seja com peças novas ou velhas, a bicicleta tem de ficar a repousar uma noite sozinha depois de montada. Senão nada vai funcionar. Há explicação científica? Sim, poderá haver para algumas coisas. Mas gosto de pensar que é mesmo a bicicleta a ganhar alma. E quando mais tempo passar , quanto mais uso tiver, mais riscos e esfoladelas, mas “viva” será e mais alma terá. Porque a vivência da bicicleta é isso, histórias e memórias que levamos ao pedalar nela.

Ler Mais