Caminhos para encontrar a verdadeira felicidade com a bicicleta

Caminhos para encontrar a verdadeira felicidade com a bicicleta
Um dia, ainda na minha adolescencia, fui pedalar com os meus amigos, como tantas outras vezes. Esse seria o último dia em que iriamos pedalar todos juntos. Não por ter acontecido algo trágico. Mas sim, por outra razão que suponho ser triste, à sua própria maneira. A bicicleta (e andarmos de bicicleta juntos) tinha deixado de ser relevante nas nossas vidas. Esta quebra com a aventura que era pedalar até sítios distantes, ou pelo menos na altura o pareciam, causou o desaparecimento de uma certa maneira de ver as coisas. O deixar de fazer coisas que eram ao mesmo tempo simples como aventureiras. O ir andar de bicicleta para andar de bicicleta.
Ir passear de carro podia até ser mais cómodo. De aventura não tinha nada. Passámos a ser como tantos outros. A nossa infância tinha ficado para trás.
Eu continuei a andar de bicicleta, se bem que agora, na maior parte das vezes, pedalava sozinho.
A minha adolescência foi cheia de btt. Posso agradecer à bicicleta de todo o terreno por me voltado a dar ao pedal. E, com o tempo, também deixei de perceber porque é que pedalava. Os anos passaram ,e , simplesmente, a bicicleta ficava mais tempo parada. Deixei de me sentir feliz em cima de uma bicicleta de btt e não sabia porquê. A bicicleta funcionava bem e tinha perícia suficiente para não fazer má figura nos trilhos. O problema era, portanto, meu. O que mudou? Uma crescente sensação de que o aspecto demasiadamente tecnológico à volta do qual o btt parecia girar tornava-se cada vez mais sufocante. As mais recentes “inovações” deixavam de fazer, para mim, muito sentido. O btt deixou de fazer sentido. Sem saber muito bem o que fazer disto tudo, comecei à procura. Do quê, não sabia bem. Mas sabia que gostava de andar de bicicleta e que era possível voltar a pedalar. E todos os dias. E sobretudo, recuperar a felicidade ao pedalar.
Que caminhos proponho então para encontrar a verdadeira felicidade?
I – Simplificar a bicicleta e a maneira como se anda de bicicleta
Pode paracer uma contradição dizer-vos para simplificar a bicicleta com a troca da actual bicicleta por uma outra diferente, mas se calhar não é. Vejamos: o actual sistema e sua maneira de pensar encara todos os recursos naturais e até mesmo o próprio homem como uma espécie de armazém, sempre pronto para ser utilizado a qualquer altura, da maneira mais optimizada, de forma a rentabilizar e sempre com o lucro rápido em mente. A obsolescencia programada é um dado adquirido em qualquer bem de consumo nos dias de hoje. Ora é o tamanho da roda que muda, ora é a necessidade absoluta de termos bicicletas cada vez mais sobredimensionadas para fazermos trilhos perfeitamente normais, ora é a necessidade de mudar as transmissões para algo ainda “melhor”. Se hoje temos 10 velocidades, amanhã teremos (de ter) 12. Mas, na prática, para além de um certo patamar, muita coisa é desnecessária. E, a tecnologia, que deveria ser um meio para atingir um determinado fim, torna-se agora o maior inimigo: todo este enquadramento gigante, desde as suspensões, transmissões, quadros exóticos de carbonos, etc, afastam-nos da verdadeira experiência do pedalar. Em vez de estarmos concentrados na experiência do momento, estamos mais concentrados no funcionamento da peça A ou B. Até a paisagem se torna como um objecto, ali, para nos satisfazer com as suas “descidas técnicas” ou com “saltos”. Características essas que são independentes do local onde pedalamos. No fundo, tanto faz pedalar em A ou B. O que interessa é pedalar, não pelo acto metafísico de o fazer, mas sim, como meio de atingir determinada meta para melhor quantificarmos e justificarmos determinada aquisição.
Como então simplificar a bicicleta? Fácil: escolher uma bicicleta mais ou menos tradicional, uma bicicleta arquétipo. Quando fechamos os olhos e imaginamos uma casa, não pensamos num apartamento T2 num qualquer subúrbio. Pensamos antes numa cada com jardim. Quando imaginamos uma bicicleta, não imaginamos uma bicicleta exótica de contra relógio feita toda em carbono tipo nave espacial. Pensamos sim, numa bicicleta bem mais clássica. Possivelmente com páralamas e portabagagens.
Uma bicicleta mais simples deverá estar o mais desligada da “rede” na medida do possível, sem entrar em excessos luditas. Transmissão “normal”, sem bizarrias de cassetes com dois dígitos, quadro com muito espaço para pneus largos, apoios para páralamas e portabagagens, travões a cabo, garfo rígido, coisas assim. Uma bicicleta mais simples resistirá melhor às constantes pressões dos “progressos” tecnológicos. Em teoria, a tua bicicleta deveria ser possível de ser construída a nível local, tal como ser possível reparar a mesma localmente, com ferramentas mais ou menos simples.
Como simplificar a maneira como se anda de bicicleta? Um primeiro passo deverá ser encarar o pedalar como algo que tanto pode ser desportivo mas sobretudo, não.  A grande maioria das pessoas encara pedalar como apenas um desporto, ou seja, algo que deve ser relegado a um ou dois dias por semana, para muitos. No fundo, estou aqui a falar da possibilidade de pedalar habitualmente, ou seja, a qualquer momento, poder simplesmente pegar na bicicleta e, juntamente com o facto da bicicleta ser mais simples, não parecer alguém que foi experimentar a bicicleta contra relógio do amigo vestido de calças de ganga. Pedalar por pedalar.
Falando de aspectos mais prácticos, evitar o uso de pedais de encaixe (que implicam o uso de calçado especial), ir pedalar com roupa feita de materiais naturais (algodão, lã, linho) e deixar o camebak em casa. Quando falo de roupa, refiro-me a roupa normal, camisas, calções clássicos, etc, que acho bem mais estéticos do que roupa justa coberta de publicidades.
II – Pedalar por pedalar
Como disse acima, pedalar por pedalar. Simples? Se calhar não.  Pedalar por pedalar implica um verdadeiro trabalho mental. Pedalar por pedalar, conscientemente, implica também um esforço, um esforço de não sucumbir às constantes distracções digitais já nossas conhecidas. Simplesmente, tratar o acto de pedalar como se de um acto de meditação se tratasse. Existir o/no momento.
III – Fazer mais coisas com a bicicleta.
Se deixarmos de usar a bicicleta apenas para fazer exercício ou para ir “fazer trilhos” ruidosamente ao domingo de manhã, podemos chegar à conclusão que a bicicleta é o veículo perfeito para aventuras.
Podemos sair cedo, sem hora para voltar. Fazer um picnic pelo caminho. Tirar umas fotos. Fazer uma sesta à sombra de uma árvore. Voltar para casa de comboio, se não tiveres vontade de pedalar.
Podemos também ir acampar com a bicicleta. Para aqueles que não têm tempo, sempre podem experimentar um S24O.
E, sobretudo, tentar incluir a bicicleta no dia a dia, na medida do possível. Deixar o carro em casa. Deixar de ter carro. Juntar a bicicleta aos transportes públicos sempre que possível. Vencer a preguiça (muitas vezes mental) de fazer curtas e médias distâncias com a bicicleta. Vencer o medo do “suar” . Pedalar mais devagar, que também lá chegamos, e menos cansados e suados. Simplificar, não complicar.
O verdadeiro caminho para a felicidade é a simplicidade.
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Passeio cicloturista a Sintra

Passeio cicloturista a Sintra
Em Portugal, o tipo de passeio que vou descrever ainda é pouco praticado. As bicicletas que costumamos usar são alvo de olhares confusos e até de gozo. Sei que posso parecer um bocado insistente e até um bocado negativo na descrição de alguns encontros que tenho com alguns ciclistas, mas custa-me que ainda haja falta de alguma cultura da bicicleta em Portugal. E agora o ponto positivo. Se não há cultura da bicicleta em Portugal, porque não fazê-la nós mesmos? 
Tinham-se passado meses desde a última vez que fui a Sintra, ainda mais com um passeio com amigos da Velo Corvo. Sintra deixa sempre, sempre saudades. Estava na altura de lá voltar.
Marcado o passeio e definido o ponto de encontro na fictícia casa de pasto “Ti Hipólito” (desculpa Rui, não fazia ideia que ainda existiam mesmo casas de pasto em Sintra), chegou a hora.
Ir a Sintra nos dias que correm é uma aventura. Sintra está agora cada vez mais transformada numa Disneilandia em que o mar de gente é uma constante. Demorámos cerca de dez minutos para sair da estação. Turistas confusos tentavam percebem como passar o bilhete nas infinitamente complicadas maquinetas portão CP. Vendedores de tours agitavam cartazes promocionais.
Reunido o grupo, estava na altura de começar a pensar em pedalar.  Estava tudo bem disposto, como sempre. Cada um com a sua bicicleta. Umas vintage, outras não. O que não faltava eram sorrisos, felizmente.
Já sabia que tinham havido algumas alterações ao sentido de circulação na cada vez menos característica Vila de Sintra. Na volta do Duche, as bicicletas podem circular. Mas, e para nossa surpresa, depois do Palácio da Vila e começando a rampa da Pena, a subida teve de ser feita a pé- o sentido de trânsito tinha alterado. Fomos cuidadosamente informados por um agente da autoridade que teríamos de ir a pé até ser possível circular dentro da lei e não apenas até o polícia nos perder de vista. Como somos bem comportados assim o fizemos, até porque no próximo cruzamento, estava mais um polícia. Parece-me ser um uso sensato das forças policiais. Isso e permitir que todos os fins de semana subam centenas e centenas de carro Serra acima. Património mundial? Pois. Seguindo em frente…
A rampa da Pena foi palco de alguns Rallies de Portugal. Felizmente, esses tempos já lá vão. Agora o Rally é outro: é a subida dos Tuc tucs bem barulhentos , autocarros turísticos e uma fila de condutores domingueiros. Será que vêm alguma coisa?
Passando a parte mais movimentada da subida, chegámos ao cruzamento castelo/ Peninha. Virámos para a Peninha e parámos uns minutos. Rapidamente chegam mais ciclistas, estes montados em super bicicletas. Olham para nós com um misto de admiração, confusão e algum gozo. Dizemos bom dia e seguimos caminho.
A partir deste cruzamento, o trânsito é quase inexistente, e ainda bem. Depois do choque que é ver aquela multidão de gente juntamente com a continuada destruição da Vila, é bom sentir que estamos um bocadinho mais longe de tudo. O silêncio aumenta à medida que continuamos a subida. Começa o exercício de meditação.
Aumenta também o nevoeiro que rapidamente se transforma em chuvisco. Estávamos a pedalar dentro de uma nuvem, afinal de contas. No cruzamento dos quatro caminhos / Capuchos, cruzamo-nos com mais ciclistas confusos que parecem não entender como conseguimos chegar até aqui acima com “aquelas” bicicletas. O caminho, esse, continua.
Sintra tem o seu próprio clima. A temperatura desce e a humidade aumenta. Continuamos a subir para a Peninha. Por mais vezes que faça esta estrada, nunca me canso dela. A cada vez que vou, há algo novo a sentir. A zona da Peninha é  considerada das mais mágicas de Sintra e hoje percebe-se bem porquê. Paramos aqui, quase sempre, para encher as garrafas de água e para comer qualquer coisa que trazemos. O picnic é a recompensa por ter feito esta subida lindíssima com os meus amigos. Conseguir juntar gente que, a partida seria tão diferente, em torno de algo tão simples que é ir pedalar é uma coisa linda. Todos nós adoramos bicicletas e bicicletas complicadas e especiais. Mas a bicicleta não interessa quando temos o que tivemos naquele dia em Sintra: uma linda experiência partilhada num local mágico. Será que aqueles que nos olharam com gozo conseguem sentir isto?
O frio começava a apertar, num dia de Verão. Estava na altura da longa descida até ao Guincho. Cerca de 10 kms, sempre a descer acompanhados de uma vista linda: o oceano, o cabo da Roca, a ponta da Europa. Começamos a descer com frio mas no Guincho estamos com calor. Olhamos para cima e vemos a Peninha, coberta de nuvens. “Estivemos ali em cima”, penso eu, enquanto me preparo para a parte final. Ciclovia até Cascais. O dia está lindo e o mar, esse, está com uma cor infinita.
Já em Cascais, terra de infinitos domingueiros, comemos um gelado. Estes pequenos hábitos que se tornam rituais fazem já parte de todos os meus passeios.
Para terminar o passeio, decidimos não apanhar o comboio para Lisboa, mas sim, pedalar até casa pela Marginal. Foi o final de um passeio que só pode ser descrito como lindo.
As fotos foram tiradas pelo Artur da  Lisbon Cycling  (https://www.lisboncycling.com/). O Artur é o melhor fotógrafo da cena das bicicletas e a página dele está cheia de bons artigos e boas fotografias. A primeira foto foi tirada pelo Ricardo. Obrigado a todos por terem vindo!
Gostaram do artigo e das fotos? Da próxima não fiquem em casa. Sigam a página da Velo Corvo no Facebook para não ficarem de fora.
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Serra da Estrela

Desde pequenos que o sabemos: o ponto mais alto de Portugal continental fica na Serra da Estrela. Dois mil metros de altitude. Na verdade, não são bem 2000 metros, mas fica lá bem perto. E, para quem sobe de bicicleta, não são uns metros a menos que vão fazer a diferença na sensação de termos conseguido fazer algo que nem todos fazem, nem que se se faz todos os dias.

Quando recentemente fui convidado a ir à cabana/retiro do Artur da Lisbon Cycling, algures pela Serra mais alta de Portugal, não pude deixar de dizer que não. Afinal de contas, não é todos os dias que subimos de bicicleta até à Torre. Sim, iria custar, mas o que é o cansaço quando se ganha paisagens e vistas fabulosas?

 

 

 

Começámos a nossa subida na aldeia de Unhais da Serra, uma localidade do lado da Covilhã. Sempre me disseram que começar em Manteigas era mais fácil, razão pela qual não comecei lá.
Já sabíamos mais ou menos o caminho, mas claro que não custa confirmar no GPS local: o grupo de homens sentados à beira da igreja local. Asseguraram-nos que a subida era fácil e que eram só 15 kms. Já sabendo o que a casa gasta, saímos preparados. Para aqueles que me estão sempre a perguntar o que levo dentro do saco, levo comida a sério (nada de barras energéticas) e roupa.

 

O nosso trajecto iria incluir uma secção de estrada em terra batida. Excelente! Vamos começar.

Uma coisa se entende rapidamente: o caminho é sempre,sempre a subir. Pela estrada que serpenteia montanha acima, rapidamente ganhamos altitude. Subindo a Nave de Santo António, reparamos que as casas tornam-se mais pequenas e as montanhas, que ao fundo pareciam pequenas, são agora enormes blocos maciços de granito e xisto. Uma coisa que nunca deixa de espantar é a dimensão titânica destes maciços de pedra, que irrompem, direcção ao céu.

 


À medida que continuamos a subida, é que nos vamos apercebendo ainda mais da dimensão da Serra – o seu tamanho parece aumentar a cada curva. Entra o jogo mental de não desistir: a paisagem ajuda a manter a força de vontade em cima. A cada pedalada ficamos mais perto do nosso objectivo.

Subir uma estrada de montanha deste calibre é um exercício de humildade: sentimos-nos mesmo pequenos.

 

Já na estrada de terra batida, tenho um furo. Aquele galho cheio de espinhos decidiu atravessar-se mesmo à frente da bicicleta. E para ajudar, a minha bomba de quadro desistiu de encher pneus. Felizmente tinha uma mini bomba de urgência que deu para continuar caminho até à nossa próxima paragem. O almoço. O saco veio cheio de queijo da serra, pão a sério e doce. Claro que a cafeteira também veio.

Até à Torre, ainda teríamos de subir mais. As últimas pedaladas são sempre as mais difíceis. Mais difícil é ver que a Torre e tudo o que o rodeia é feio. Um centro comercial terrível. Um parque de estacionamento ainda pior. Domingueiros com as suas dominguices. Mas não subimos até cá acima para ver coisas feias. Abstemo-nos destas vistas e concentramos-nos noutras. Cá de cima, podemos ver longe. Muito longe. Valeu a pena.

 

As montanhas sempre tiveram algo de mítico. Acima do plano da existência profana do dia a dia, o sagrado das alturas contrasta com o quotidiano. O ar é fresco e limpo. O vento frio corta. O céu, a nossos pés.

 

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