Ao sairmos do nosso cantinho, teremos de conviver com os outros. E, se formos a pedalar, numa estrada, as coisas ficam mais complexas. Mas não impossíveis. Geralmente, ninguém fica uma pessoa melhor e mais calma ao volante de um automóvel. Infelizmente. Seja de carro, a pé ou de bicicleta, todos nós já vimos condutores a perder a paciência por tudo e por nada. Cenas de pancadaria, excesso de velocidade e outras manobras que colocam em risco a vida dos outros utilizadores da via pública são realidades constantes, já para não falar da buzinadela que é agora uma habitual forma de protesto contra ao menos impedimento à circulação do precioso automóvel.
O novo código da estrada veio trazer aos ciclistas uma maior protecção face aos outros utilizadores. Não veio trazer mais “deveres” como é costume ler nas caixas de comentários dos jornais online, sempre que os ciclistas são trazidos à baila numa qualquer notícia. E as bicicletas sempre existiram nas estradas portuguesas. Cumprir o código da estrada sempre foi obrigatório, para todos. Ora, o próprio código inclui os peões e os ciclistas numa categoria à parte: a de utilizadores vulneráveis. Muitos dos automobilistas teimam em não respeitar, tanto os peões como os ciclistas.

 

Relativamente aos ciclistas, estes são vistos pelos automobilistas como um atraso na fluidez do trânsito, esquecendo-se os próprios de que eles também são um (maior) atraso no trânsito, já para não falar no enorme custo que é, para todos nós, termos de conviver com milhares e milhares de carros nas nossas cidades, ora por razões de saúde ora pela simples razão de que carros na cidade tornam tudo mais difícil. “Não há alternativa”, ouve-se muita vez. Ora porque é a subir, ora porque é a descer. Ora porque faz sol ora porque faz chuva. Etc, etc. Quando a vontade falta, as desculpas são muitas. O que sei é que há muita gente que não larga o automóvel por comodismo. Isto já tirando da equação pessoas que não têm capacidade física para deixar de usar o automóvel. A preguiça tornou-se um modo de vida. E claro: podem simplesmente reduzir o uso do automóvel, fazendo parte do percurso do dia a dia recorrendo aos transportes, por exemplo. E claro, recorrendo à bicicleta. Não custa experimentar! Muitas das críticas são feitas por pessoas que nunca experimentaram andar de bicicleta no dia a dia.

 

 

Posto isto, e sabendo que a bicicleta nos dá liberdade e bem estar, aqui vão algumas simples considerações para a sã convivência entre ciclistas e os outros.

1- O capacete não é obrigatório. Nem devia ser. Há muitos sites pela internet espalhados que explicam bem a coisa. Fora isso, convém frisar que muitas das vezes o capacete é trazido à baila (tal como a matrícula, seguro e colete reflector) como argumento de “segurança” para os ciclistas, quando a segurança deveria começar precisamente nos mais perigosos automóveis e sua excessiva e má utilização tanto nas cidades como fora destas. Ora, reconhecendo que o capacete pode ser e é útil em muitas situações de acidente, não é a solução mágica. O caminho para maior segurança começa connosco. Praticando uma …

2- condução segura! O Código da Estrada não obriga a circular encostadíssimo à direita. Aliás, até reconhece que ,ao circular mais ao centro da via, o ciclista se torna mais visível . Na minha experiência, o melhor é facilitar o trânsito sem nos deixarmos ser “pisados”. Isto é, as bicicletas têm o direito de circularem seguramente e com espaço na estrada. Nada de circular tipo artista de circo, a 3 cms do passeio. Quando circulamos com mais ciclistas, facilitar a passagem dos carros. Sim, o código permite circular lado a lado, mas, se possível, facilitar a passagem do carro. Acho que é melhor para todos. Quando há mais do que uma faixa, aí sim, podem e devem circular lado a lado. Partilhar a estrada, não é?
Tentar não ultrapassar carros parados o transito pela direita. Tentar ocupar a faixa para evitar razias, por exemplo, em cruzamentos com semáforos. Evitar passar sinais vermelhos. Enfim, usar o senso comum.
Usar sempre luzes que se vejam.Não me quero alongar aqui muito sobre que tipo de luzes a usar, mas a minha preferência tende para luzes alimentadas por cubos dínamo. Acho desajustado usar luzes vindas da China, próprias para a prática do BTT nocturno, na cidade. Não é necessário uma luz de estádio de futebol na bicicleta, para encandear meio mundo.
Certificar-se de que as luzes têm sempre pilhas. E pessoalmente não gosto de luzes vermelhas a piscar. Acho que só distrai e confunde. E, se necessário, reforçar a visibilidade com um colete reflector. Eu sei que é horrível, mas…
Uma palavra acerca das ciclovias. Não, os ciclistas não são obrigados a pedalar nas ciclovias. E ainda bem, pois há algumas ciclovias que são um verdadeiro atentado. Ciclovias em cima de passeios que obrigam a gincanas diversas, ciclovias demasiado estreitas, etc. A lista de críticas é interminável. O pior é que, para além de todas as críticas acima feitas, muitas das ciclovias são rapidamente ocupadas por peões que se passeiam tranquilamente. Sim, entendo que muitas pessoas andam a pé na ciclovia porque têm de empurrar um carrinho de bebé e até podem ter dificuldades de locomoção. Nestes casos, há que compreender e passar tranquilamente ao lado. O que nunca devemos fazer, por mais chato que seja, é passar demasiado perto, demasiado depressa. E sobretudo, não entrar em conflito! Senão, acabamos por ser como alguns condutores de automóveis que gostamos de criticar. Sim, a situação das ciclovias está longe de estar resolvida. Mas até as coisas melhorarem, é a melhor maneira. Conviver tranquilamente e sempre que possível, informar as gerações mais ágeis relativamente à mudança de que as ciclovias foram feitas para as bicicletas. Pois ninguém gosta de um ciclista a passear no passeio a fazes gincana entre os peões, não é? Nas ciclovias, basta uma campainha para se fazer ouvido e um obrigado por simpatia. E nada de corridas na ciclovia!

No dia a dia, a bicicleta torna as nossas deslocações bem mais agradáveis. Seja a ir para o trabalho, escola ou para um picnic, de certeza que de bicicleta vão mais bem dispostos. E, sobretudo, não deixar que a má disposição dos outros nos impeça de ir a pedalar tranquilamente.
Por vezes, a nossa formatação diz-nos que não é possível. Mas garanto-vos, há quase sempre uma solução alternativa ao estado actual das coisas. Nem que seja uma solução que envolva pedalar parte do caminho. Sempre é melhor que não pedalar!