2-Que bicicleta escolher?

Olhando para a variedade de bicicletas disponíveis e juntando a isso uma imensidão de opiniões divergentes e até erradas sobre tudo relacionado com bicicletas, é perfeitamente expectável que o novato se sinta perdido. Roda 700, 26, 27,5. 18 mudanças, 27, 21,1×10. Travões de disco são melhores, certo? Suspensões, selins de gel. Há quadros de tamanho diferente?
E dá para montar um cestinho?

Bem, tal e qual como um par de sapatos, há uma bicicleta adequada para cada utilização.

Vamos então ver quais são os vários tipos de bicicleta que existem. Vou-me focar mais nas bicicletas que interessam ao utilizador comum.

Claro que há muitos detalhes que ficaram de fora, mas qualquer dúvida, basta perguntar.

B.T.T: desde o “boom” das bicicletas todo o terreno, nos anos 90, que este é sem dúvida o tipo de bicicleta mais visto nas nossas estradas.
As BTT vão desde as simples bicicletas de supermercado, que devem ser evitadas a todo custo, até a máquinas de extrema precisão de construção, com preços na região dos milhares de euros. Existem quase sempre com suspensão e são feitas para pedalar fora de estrada em trilhos muito acidentados. Trilhos de terra batida e estradões de terra não são caminhos muito acidentados! Ou seja: não precisamos de uma BTT para lá andar.
O BTT é divertido. Como sei? Tal como muita gente, o BTT foi a minha entrada para as bicicletas. Com o tempo fartei-me. O BTT é das modalidades em que as “inovações” tecnológicas mais comanda o mercado. Num ano é a roda 29. No outro ano, a roda 29 já é muito grande. 27,5 é que é. Agora é 26+. Ora são os vários standards de eixo pedaleiro, ora é a constante indecisão sobre qual o diâmetro do tubo de direcção. Tudo isto, junto com uma atitude menos positiva de muitos praticantes do BTT, mais virada para o consumo da mais recente “inovação” do que para o contacto com a natureza, afastaram-me do BTT.

 

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Estas bicicletas não são ideais para usar no dia a dia. Pneus com rasto só servem para caminhos de terra. Na estrada, tornam-se um calvário. As suspensões comem muito do esforço do pedalar. E, no caso das bicicletas de BTT mais recentes, no geral é impossível montar porta bagagens e pára lamas, ambos essenciais para quem faz da bicicleta meio de transporte.

 

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Contudo, muitas das BTTs mais antigas, dos anos 90,e até algumas mais recentes, trazem apoios para pára lamas e porta bagagens. Se tiverem a sorte de terem uma bicicleta destas, guardem-na! São ideais para tornarem a BTT numa bicicleta “faz tudo”, trocando o guiador por um que permita uma posição de condução mais confortável. Aceitam pneus largos, excelentes para bicicletas que se querem confortáveis.

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Bicicletas de estrada (modernas)

Geralmente, é o que se chama a bicicletas tipo as que se vêm nas provas de ciclismo como a Tour de France.

Têm pneus de alta pressão, finíssimos. A posição de condução é desportiva, ou seja, mais virada para a velocidade e por isso, fisicamente exigente para quem pedala.

 

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As mudanças são geralmente “pesadas”, mais uma vez, para possibilitar rolarem a altas velocidades.
As bicicletas de ciclismo mais recentes são tão caras como as  de BTT. Quadros em carbono, pouco espaço para montar pneus mais largos e já para não falar da impossibilidade de montar porta bagagens e pára lamas, tornam estas bicicletas uma má escolha para o utilizador comum.
Mesmo os modelos de gama de entrada deste segmento tentam imitar modelos mais caros: pouco espaço para pneus, formas exóticas de tubagem (se o quadro for de alumínio), ausência de olhais para montagem de pára lamas.
Basicamente, só servem para uma utilização desportiva.

Bicicletas de estrada (antigas)

Recentemente, tem havido um enorme interesse por bicicletas de estrada antigas, em especial as dos anos 70, 80 e 90. Não admira. Há de facto muita bicicleta bonita desta época!

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Apesar de, em principio, a posição de condução ser desportiva tal como as mudanças serem pesadas, para rolar a alta velocidade,os quadros mais antigos costumam permitir montar pneus mais largos. Muitas até trazem olhais para pára lamas e porta bagagens. A sua geometria não será a ideal para voltas ao mundo. Mas, com um olhar crítico e algum jeito, é possível tornar uma velha estradeira numa bicicleta bem mais apta para o uso diário.
Para isto, bastará trocar o guiador por um que permita uma posição menos inclinada para a frente, logo, mais confortável.
Investir nuns pneus um bocadinho mais largos, tendo em atenção ao espaço para pneus que o quadro tem, claro. Certificar-se de que a bicicleta é revista por um profissional, de forma a ter a certeza de que os travões funcionam tal como as mudanças.

Bicicletas francesas (não de ciclismo competitivo)

Sem dúvida, as bicicletas preferidas aqui na VeloCorvo. Porquê? para além de serem quase sempre bonitas, no geral vêm preparadas para fazer muita coisa para além do ciclismo desportivo.Muitas delas vêm com pára lamas e porta bagagens (quase sempre cromados e bonitos). E quase sempre dão para montar pneus suficientemente largos para o uso no dia a dia.

 

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Ora, não há bela sem senão. Com as peças originais, as bicicletas francesas são por vezes difíceis de usar intensivamente. As rodas são muitas das vezes com aros em aço cromado com raios galvanizados. As mudanças são pesadas demais, oferecendo pouca desmultiplicação. Se calhar as pessoas antigamente tinham mais força, não sei. Fora isso, as bicicletas francesas têm algumas medidas que não são standard, o que pode complicar um bocado mais as coisas. Mas nada que a Velo Corvo não resolva com uns truques e magia.

 

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Resumindo: bicicletas francesas, sim, sem dúvida. Mas o ideal será contar também com alguns trocos para modernizar a transmissão e rodas. Feito isto, a bicicleta ganha vida e consegue-se uma bicicleta bem versátil, com mecânica “normal” e apta para muitos quilómetros e muitas aventuras. Podem ver uma transformação de uma bicicleta francesa aqui: http://velocorvo.com/2016/04/28/a-eddy-merckx-do-ze/
Bicicletas utilitárias (citadinas, pasteleiras e afins)

Nestas bicicletas podemos também distinguir entre bicicletas novas e antigas.

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Hoje em dia, bicicletas bonitas e citadinas não faltam. Todas elas seguem muitos dos mesmos moldes. Muitas vêm equipadas com apenas um prato na pedaleira, para simplificar a transmissão (sacrificando assim um pouco da sua versatilidade). Quase sempre trazem porta bagagens e pára lamas. São ideais para deslocações menos compridas, em cidade. Geralmente vêm equipadas com pneus mais largos, para um maior conforto. E, se houver um trilho de terra batida a percorrer, porque não?
Ideais para montar cestinhos e para usar todos os dias, mas sem grandes exigências relativamente à versatilidade.

Relativamente a bicicletas antigas, geralmente chamadas de pasteleiras, se o que procuram é uma bicicleta apta para uso intensivo, as pasteleiras portuguesas são de evitar.

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Infelizmente sempre ficaram muito aquém das bastante superiores bicicletas inglesas, tipo Raleigh, Rudge etc. Já para não falar nos verdadeiros cavalos de batalha que são as pasteleiras Holandesas. Claro, muitas delas nem mudanças tem. Por isso, há que ter pernas! Pasteleiras, sim, mas depende muito do percurso a pedalar. E claro, da qualidade da bicicleta.

 

Bicicletas dobráveis

 

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As bicicletas ideais para quem precisa de ter a bicicleta sempre consigo. Como, depois de dobradas, ocupam pouco espaço, são ideais para quem precisa de fazer interface com vários transportes públicos, especialmente autocarros. Felizmente, muitos comboios urbanos, tal como barcos, já permitem o transporte de bicicletas sem grandes impedimentos, o que elimina a necessidade absoluta da bicicleta ser dobrável. Contudo, nada vence quando precisamos de, por exemplo, apanhar um comboio no qual seria mais difícil o transporte de uma bicicleta normal ou de apanhar boleia de alguém ou até apanhar um táxi de termos connosco uma bicicleta dobrável. Basta dobrá-la e pronto!

As bicicletas dobráveis vêm em vários formatos e alguns tamanhos de roda. Como em muitas coisas na vida, quanto mais barata for, pior será, muito provavelmente. O ideal será ter um quadro robusto, algumas mudanças, porta bagagens e pára lamas. Assim, as desculpas para não usar a bicicleta ficam em casa.

Bicicletas de viagem / trekking

A bicicleta para dar a volta ao mundo. Bastante versátil, pois geralmente vêm equipadas com pneus mais largos e mudanças que oferecem bastante desmultiplicação. Ideais para uso diário, pois para além dos pneus largos (mais confortáveis nas estradas urbanas), têm as mudanças que ajudam a conquistar as subidas e os pára lamas mantêm o ciclista seco. E claro, os porta bagagens possibilitam transportar carga.

Quase que parece uma bicicleta de todo o terreno. Assim daquelas mais antigas. Mas não é.

 

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